2025.10.06 - Ensaio: documentos em processo de expansão
1 diálogo
Sempre entendi minha prática no design gráfico ligada ao desenho. Desenvolver esboços, conectar pensamentos e testar variações nas dimensões do papel são as técnicas que têm maior agilidade para acompanhar os meus anseios desde o primeiro momento do processo criativo.
Numa prática que tem como um dos seus fins a função comunicacional, é através de desenhos e representações gráficas que estabeleço um elo de interlocução com outros participantes do projeto - seja um solicitante, em projetos comissionados, ou em uma relação de trabalho em equipe criativa.
As técnicas de criar painéis semânticos e mapas mentais, para dar liga a ideias e conceitos através de recursos gráficos e verbais, são meios que utilizo inicialmente de maneira individual, mas são rapidamente levadas para o diálogo. É através desses agrupamentos que busco alcançar um repertório comum para o processo criativo.
O compartilhamento e construção conjunta desse referencial muda a experiência criativa de lugar. Inicialmente mais íntima e unilateral, onde o agente proponente (o designer) ocupa-se grandemente por montar argumentos para explicar as escolhas ao seu interlocutor (assistente, cliente, vendedor etc.), a construção passa a ser mais colaborativa quando esse outro que participa da escolha tem acesso aos componentes que constituem a ideia.
2 procedimentos
No processo de tradução dos desenhos feitos no papel para o suporte digital, no software de computação gráfica, busco preservar nas formas e esquemas as mesmas regras mecânicas e de espacialidades - para que essa etapa seja uma transposição que aproveita o livre pensar do papel. Por trás disso, pretendo fazer com que a captura de movimento seja clara e pulsante durante essa transposição.
A exploração gráfica se dá num processo de anotações visuais, ao criar painéis que registram diferentes condições e possibilidades para cada forma e elemento imagético - posicionados lado a lado. O resultado é o rastro de uma transformação gravada - passado e presente - no mesmo espaço.
Este novo ambiente, onde os símbolos e ideias materializadas coexistem, permite uma navegação entre o processo de conversão das intenções e desejos do projeto, que ativam singularidades que encontramos só a partir da maneira que ela foi traduzida - com suas imperfeições, com sua reprodução mecânica, com desvios, com alto e baixo contraste. É um movimento de recorte de plano, ativando escalas de visualização para olhar o individual e o conjunto simultaneamente. Aqui há uma negociação com o espaço para observar esse horizonte de imagens que se forma.
O movimento no computador carrega uma marca física e singular: como canhoto que aprendeu a usar o mouse com a mão direita, todo o movimento que necessita do cursor tem um desvio de precisão, um movimento um pouco mais árduo do que se mão “dominante” ficasse a cargo da ferramenta rigorosa que é o cursor. Enquanto isso, a “mão sinistra” fica responsável por remendar e remontar (ctrl+x, ctrl+v, ctrl+z).
3 exercício do olhar
O desenho de esboço comumente é encarado como etapa da “validação”, sendo carregado de objetividade e da função de encontrar o caminho certo a se seguir - ou, em uma troca de palavras que eu acho irônica, “a linha certa” do projeto.
Usar desse jogo de descoberta coletiva é uma maneira que enxergo de desviar de alguns dos vícios e esquemas pré-estabelecidos no processo de criação (ainda que minha prática esteja sujeita a uma influência inconsciente e demais contextos). Mesmo em projetos comissionados para fins comerciais - com a expressa demanda de distinção, referencial e comunicação -, pode-se assim tensionar a ideia para um rumo menos óbvio e geral para a resposta mais íntima.
Assumo como um exercício do olhar para encontrar, durante o processo, a resposta para o anseio do projeto, seja no desenho rápido, na anotação que marca um trecho, ou na posição intermediária entre duas forma tidas como finais.